Brasileiros com diploma e carreira que abandonaram profissões para trabalhar como faxineiros em Londres enfrentam precariedade e desafios para regularização

Brasileiros qualificados e sem visto vivem realidade difícil no mercado de limpeza em Londres

Nos últimos anos, vários brasileiros com diploma universitário e formação acadêmica deixaram suas carreiras no Brasil para buscar uma vida melhor em Londres. No entanto, muitos enfrentam barreiras para validar seus diplomas e conseguir emprego formal, o que os obriga a trabalhar na informalidade, principalmente com limpeza, atividade conhecida localmente como cleaner.

É o caso de Lívia, engenheira civil com mestrado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que chegou à capital britânica com visto de turista para estudar inglês e, frustrada com a dificuldade de validação do diploma — processo considerado caro e demorado — passou a trabalhar de forma irregular na limpeza. Ela relata jornadas longas e cansativas, embora considere esse trabalho fisicamente menos desgastante do que a faxina doméstica tradicional. Sua remuneração chegava a 12,20 libras por hora, equivalente a cerca de R$ 88.

O paradoxo da sobrequalificação migrante

Outro exemplo é o oceanógrafo Wagner, que saiu de Porto Alegre após concluir sua graduação durante um intercâmbio, e agora sobrevive fazendo limpeza em hotéis por meio de agências, recebendo aproximadamente 2 mil libras mensais (cerca de R$ 14,4 mil). Wagner, como Lívia, não possui visto adequado e diz que nenhuma categoria de visto se aplica à sua situação devido à falta de vínculos familiares, especialização específica ou salário mínimo exigido para regularização no Reino Unido.

Essas trajetórias refletem o que a pesquisadora Claire Marcel, da SOAS University of London, denomina “paradoxo da sobrequalificação migrante”. Em sua tese de doutorado, ela explica que mesmo trabalhadores com diplomas universitários experimentam baixos salários, jornadas extensas e insegurança devido a baixos reconhecimentos de suas qualificações e limitações impostas pelo status migratório, agravados pelas barreiras linguísticas.

Um fenômeno estrutural da imigração brasileira em Londres

A professora e pesquisadora Tânia Tonhati, da Universidade de Brasília, aponta que desde os anos 1990 o Reino Unido atrai brasileiros com alto nível educacional, mas o contexto atual tornou-se mais restritivo devido a fatores como Brexit e a pandemia, que dificultaram a mobilidade e ampliaram a precariedade no recomeço da vida no exterior. Segundo ela, o perfil recorrente é de jovens com capital econômico, social e cultural que aceitam empregos temporários e precários com a esperança de evolução futura. O rebaixamento profissional, portanto, não se deve a falhas individuais, mas a estruturas que desvalorizam o trabalho de imigrantes.

Faxina como alternativa para quem não tem diploma nem visto

Para brasileiros sem ensino superior e em situação irregular, a situação se complica ainda mais. É o caso de Fabiana, goiana de 24 anos que chegou em Londres em 2020 durante a pandemia, e hoje trabalha como funcionária fixa para uma família britânica, graças a uma agência terceirizada. Ela recebe 11 libras por hora (R$ 79), o que equivale a um salário mensal em torno de 2,2 mil libras, ou R$ 15,9 mil, valor alto para o padrão brasileiro, mas que se reduz muito diante do alto custo de vida em Londres, consumindo mais da metade da renda com aluguel, transporte e alimentação. Fabiana relata viver sob constante tensão devido ao medo da deportação e à falta de regularização.

Fiscalização e precarização do setor de limpeza no Reino Unido

O mercado de limpeza no Reino Unido é uma das maiores indústrias locais, faturando 66,9 bilhões de libras em 2022, segundo o British Cleaning Council. O setor emprega cerca de 1,49 milhão de pessoas, sendo grande parte mulheres e imigrantes, especialmente em Londres, onde 60% dos cleaners nasceram fora do Reino Unido. No entanto, a pesquisadora Claire Marcel destaca que essa expansão se apoia na precarização e terceirização extrema, com muitos trabalhadores recebendo em dinheiro, sem contratos formais, tornando-os suscetíveis a exploração e roubo de salários.

O governo britânico intensificou a fiscalização ao trabalho irregular. Entre julho de 2024 e junho de 2025, foram realizadas 10.031 operações, aumento de 48% em relação ao ano anterior. Foram registradas 7.130 prisões de suspeitos de trabalho ilegal, com 1.786 prisões em Londres. Empregadores que contratam pessoas em situação irregular receberam multas que podem chegar a 60 mil libras por trabalhador, conforme dados do Home Office.

Apesar das dificuldades, muitos brasileiros seguem na busca por estabilidade e melhores condições. A esperança está na perseverança, na circulação por países da União Europeia onde os processos podem ser mais acessíveis, e na valorização do trabalho em todas as suas formas, reconhecendo sua dignidade mesmo diante de obstáculos.

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