Antecedentes criminais, vida pessoal e nome sujo: quando a empresa pode ou não consultar candidatos na seleção no Brasil

Antecedentes criminais, vida pessoal e nome sujo: os limites legais para consultas de empresas no Brasil

No Brasil, a consulta a antecedentes criminais, restrições de crédito em SPC/Serasa e a investigação da vida pessoal durante processos seletivos são temas que envolvem direitos fundamentais e que exigem cuidado das empresas para não cometer abusos ou atos discriminatórios. A prática ilegal dessas consultas pode gerar indenizações milionárias, como evidenciado em recentes casos que ganharam repercussão na Justiça do Trabalho.

Quando a consulta se torna ilegal nas contratações

Recentemente, a multinacional Eaton Ltda. firmou acordo judicial com o Ministério Público do Trabalho (MPT) para pagar R$ 1,8 milhão por danos morais coletivos, após constatação de que a empresa contratava terceiros para investigar a vida pessoal de seus trabalhadores.

Casos semelhantes já foram julgados no Tribunal Superior do Trabalho (TST), como o de uma empresa de São Paulo condenada a pagar R$ 100 mil por danos morais coletivos por realizar consultas de antecedentes criminais e restrições financeiras antes da contratação, sem justificativa direta relacionada ao trabalho.

Além disso, o MPT denunciou a Intercement Brasil, que descartou candidato aprovado em exame admissional devido a restrições de crédito, pedido que resultou em ação judicial por prática discriminatória. A Justiça trabalhista debate atualmente a legalidade e o impacto dessas consultas sem base legal.

Legislação e exceções para pesquisas de antecedentes e restrições financeiras

Segundo a advogada trabalhista Ana Gabriela Burlamaqui, as empresas brasileiras não podem exigir certidões de antecedentes criminais ou pesquisar restrições financeiras de candidatos de forma indiscriminada durante processos seletivos.

A legislação brasileira autoriza essas consultas apenas para profissões específicas, como motoristas, vigilantes, bancários e profissionais que lidam diretamente com crianças e idosos. Essa restrição legal existe porque essas funções envolvem elevado grau de confiança e proteção de pessoas vulneráveis.

Para cargos que não possuem essa relação direta, exigir certidões ou pesquisas de crédito é considerado abuso e pode resultar em indenização por danos morais. A pesquisadora destaca que não há justificativa plausível para impedir a contratação devido a restrições financeiras, pois isso fere princípios constitucionais como a dignidade humana, intimidade e o valor social do trabalho, além de violar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Equilíbrio entre intimidade e necessidade empresarial na avaliação dos candidatos

O advogado trabalhista Bruno Minoru Okajima complementa que a consulta a restrições financeiras só é válida para funções que demandam análise ou concessão de crédito, como em bancos ou instituições financeiras. Em outras situações, ela pode ser enquadrada como ato discriminatório.

Outro especialista, Hugo Luiz Schiavo, ressalta que a empresa deve equilibrar o direito à intimidade do trabalhador com a necessidade de identificar possíveis irregularidades, sempre adotando critérios proporcionais, com acesso restrito ao mínimo necessário de informações para evitar violação à dignidade do candidato.

Direitos dos candidatos e riscos para as empresas

É importante que candidatos que se sentirem discriminados por essas práticas busquem reparação por meio de ações trabalhistas para indenização por danos morais ou pela frustração de promessa de contratação. Eles também podem denunciar ao Ministério Público do Trabalho e ao Ministério do Trabalho para que as práticas abusivas sejam apuradas e combatidas.

Comprovar a discriminação, contudo, é desafiador porque as empresas não são obrigadas a informar motivos para reprovação. Indícios podem surgir de anúncios de vaga que solicitam antecedentes ou “nome limpo”, exigência de certidões sem justificativa, testemunhos e políticas internas que confirmem as práticas irregulares.

O advogado Okajima explica que “não se torna legal só porque é costume da empresa. As rotinas empresariais não podem ferir direitos fundamentais como a igualdade no acesso ao emprego e a proteção à vida privada”.

Especialistas alertam que condutas abusivas nas seleções perpetuam a exclusão social e atrapalham o avanço da sociedade brasileira. Okajima conclui afirmando que exigir pesquisas de antecedentes e crédito só é correto quando o cargo exige maior grau de confiança, e deve ser aplicado com cuidado apenas em situações específicas.

Dessa forma, é fundamental que as empresas estabeleçam critérios claros e legais para a seleção, respeitando os direitos dos candidatos e evitando transformar o processo seletivo em mecanismo de discriminação.

Deixe um comentário

Usamos cookies para personalizar conteúdos e anúncios, oferecer recursos de mídia social e analisar o tráfego em nosso site. Também compartilhamos informações sobre como você utiliza nosso site com nossos parceiros de mídia social, publicidade e análise. View more
Cookies settings
Aceitar
Privacidade & Cookie Politica
Privacy & Cookies policy
Cookie nameActive

A Política de privacidade para Portal Vagas

Todas as suas informações pessoais recolhidas, serão usadas para o ajudar a tornar a sua visita no nosso site o mais produtiva e agradável possível.A garantia da confidencialidade dos dados pessoais dos utilizadores do nosso site é importante para o Portal Vagas.Todas as informações pessoais relativas a membros, assinantes, clientes ou visitantes que usem o Portal Vagas serão tratadas em concordância com a Lei da Proteção de Dados Pessoais de 26 de outubro de 1998 (Lei n.º 67/98).A informação pessoal recolhida pode incluir o seu nome, e-mail, número de telefone e/ou telemóvel, morada, data de nascimento e/ou outros.O uso do Portal Vagas pressupõe a aceitação deste Acordo de privacidade. A equipa do Portal Vagas reserva-se ao direito de alterar este acordo sem aviso prévio. Deste modo, recomendamos que consulte a nossa política de privacidade com regularidade de forma a estar sempre atualizado.

Os anúncios

Tal como outros websites, coletamos e utilizamos informação contida nos anúncios. A informação contida nos anúncios, inclui o seu endereço IP (Internet Protocol), o seu ISP (Internet Service Provider, como o Sapo, Clix, ou outro), o browser que utilizou ao visitar o nosso website (como o Internet Explorer ou o Firefox), o tempo da sua visita e que páginas visitou dentro do nosso website.

Cookie DoubleClick Dart

O Google, como fornecedor de terceiros, utiliza cookies para exibir anúncios no nosso website;Com o cookie DART, o Google pode exibir anúncios com base nas visitas que o leitor fez a outros websites na Internet;Os utilizadores podem desativar o cookie DART visitando a Política de privacidade da rede de conteúdo e dos anúncios do Google.

Os Cookies e Web Beacons

Utilizamos cookies para armazenar informação, tais como as suas preferências pessoas quando visita o nosso website. Isto poderá incluir um simples popup, ou uma ligação em vários serviços que providenciamos, tais como fóruns.Em adição também utilizamos publicidade de terceiros no nosso website para suportar os custos de manutenção. Alguns destes publicitários, poderão utilizar tecnologias como os cookies e/ou web beacons quando publicitam no nosso website, o que fará com que esses publicitários (como o Google através do Google AdSense) também recebam a sua informação pessoal, como o endereço IP, o seu ISP, o seu browser, etc. Esta função é geralmente utilizada para geotargeting (mostrar publicidade de Lisboa apenas aos leitores oriundos de Lisboa por ex.) ou apresentar publicidade direcionada a um tipo de utilizador (como mostrar publicidade de restaurante a um utilizador que visita sites de culinária regularmente, por ex.).Você detém o poder de desligar os seus cookies, nas opções do seu browser, ou efetuando alterações nas ferramentas de programas Anti-Virus, como o Norton Internet Security. No entanto, isso poderá alterar a forma como interage com o nosso website, ou outros websites. Isso poderá afetar ou não permitir que faça logins em programas, sites ou fóruns da nossa e de outras redes.

Ligações a Sites de terceiros

O Portal Vagas possui ligações para outros sites, os quais, a nosso ver, podem conter informações / ferramentas úteis para os nossos visitantes. A nossa política de privacidade não é aplicada a sites de terceiros, pelo que, caso visite outro site a partir do nosso deverá ler a politica de privacidade do mesmo.Não nos responsabilizamos pela política de privacidade ou conteúdo presente nesses mesmos sites.
Save settings