A rotina extrema da nova premiê japonesa que preocupa o país
Sanae Takaichi, nomeada primeira-ministra do Japão em outubro, tem chamado atenção nacional e internacional por sua postura workaholic, especialmente ao declarar dormir apenas cerca de duas horas por noite. Inspirada na ex-premiê britânica Margaret Thatcher, que dizia precisar de apenas quatro horas de sono, Takaichi expressa publicamente o desejo de trabalhar sem descanso e espera que seus ministros e a população sigam o mesmo ritmo intenso.
Recentemente, a premiê convocou uma reunião em seu gabinete às 3h da manhã, antecedendo outro encontro importante às 9h.
Ela afirmou ao jornal que dorme, no máximo, quatro horas por noite, brincando que isso provavelmente é ruim para sua pele. Essa atitude tradicional do Japão, voltada para o excessivo comprometimento no trabalho, tem gerado alarme em diversos setores do país, sobretudo porque Sanae Takaichi também propõe flexibilizar os limites para horas extras, que atualmente giram em torno de 720 horas anuais.
Medo de retrocesso no combate ao karoshi
O karoshi, termo japonês que significa morte por excesso de trabalho, é um problema grave que vem ganhando atenção crescente. Em 2024, o governo registrou um recorde de 1.304 casos de mortes e distúrbios relacionados ao trabalho excessivo, um aumento preocupante de 196 casos em relação ao ano anterior. Desses, 1.057 envolveram distúrbios mentais decorrentes da carga laboral, incluindo abuso e assédio no ambiente de trabalho.
Tomoko Yoshino, primeira mulher a liderar o maior sindicato do Japão, o Rengo, criticou abertamente a proposta da premiê, alertando que “não podemos permitir que o limite máximo de horas extras seja flexibilizado”. Ela destacou que o país ainda está “apenas na metade do caminho para reduzir o karoshi a zero e promover reformas no estilo de trabalho”.
Um grupo de advogados que representa famílias afetadas pelo karoshi também chamou atenção para os comentários da premiê, afirmando que eles não ajudam no desafio de enfrentar a cultura de jornadas excessivas arraigada no Japão. A pressão para manter o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, que vinha avançando, pode retroceder caso as flexibilizações propostas sejam aprovadas.
Debates internos e internacionais sobre direitos trabalhistas
O ministro da Saúde, Takamaro Fukuoka, mesmo dentro do governo, enfatizou que “acredita que perder a vida ou a saúde devido ao excesso de trabalho não deve acontecer”. Já Teppei Kasai, representante da Human Rights Watch em Tóquio, ressaltou que o problema não é exclusivo do Japão, mas que a cultura corporativa japonesa “tende a enfatizar excessivamente a presença física em detrimento da produtividade”, o que força os trabalhadores a comparecerem ao trabalho mesmo doentes.
Kasai reforça que a flexibilização das horas pode aumentar a exploração laboral, e cita as diretrizes da ONU de 2016, que apontam para o estabelecimento de padrões mínimos que não podem ser suprimidos por argumentos econômicos. Segundo ele, “nenhum trabalhador deve ser forçado a trabalhar 90 horas por semana”, e é fundamental uma proteção eficaz para garantir descanso e condições justas.
A voz dos trabalhadores e o impacto social
Nas redes sociais, profissionais japoneses compartilham jornadas de trabalho de até 18 horas diárias, revelando o impacto na saúde mental e na qualidade de vida. O criador de conteúdo Hiro, que mantém o canal Typical Salaryman, relata seu sofrimento e enorme cansaço, encontrando conforto na alimentação diante da solidão corporativa. Seus vídeos têm gerado apoio internacional, com seguidores desejando melhorias para sua vida.
Issei, de 27 anos, exemplifica a dificuldade enfrentada por muitos jovens: após a formatura, não encontrou estabilidade, passando por empresas com jornadas exaustivas e cultura tóxica que desvaloriza o equilíbrio entre vida e trabalho. Ele explica que, embora pudesse desistir, outros trabalhadores continuam até sofrer consequências graves.
Por outro lado, há um debate mais cauteloso sobre a flexibilização, especialmente diante de desafios econômicos atuais. Makoto Watanabe, professor de Comunicação e Mídia, argumenta que quem deseja trabalhar mais horas para aumentar renda deveria poder fazê-lo, desde que a legislação impeça abusos. Ele reconhece os riscos de suicídios e doenças ligadas ao excesso de trabalho, mas acredita que houve avanços nos últimos anos.
A situação coloca o Japão diante de um momento crucial no qual o equilíbrio entre a produtividade, o direito à saúde e o respeito ao tempo pessoal ganham urgência, frente a uma liderança que promete ritmo intenso e mudanças controversas.
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